Dicas para Donos 17 de setembro de 2026 4 min

Como Precificar Serviços de Assistência Técnica: O Cálculo da Hora Técnica

Aprenda a calcular sua hora técnica: custos fixos, deslocamento, margem de peças e lucro. O método que tira o técnico autônomo da guerra de preço.

Anderson Rey
Anderson Rey

Técnico · YouTuber · Professor · Ex-professor Senac · 4 min de leitura

Técnico autônomo calculando orçamento com calculadora e caderno de ordens de serviço na bancada

A pergunta que mais trava técnico autônomo não é técnica: é 'quanto cobro?'. Cobrar de menos por medo de perder o cliente é o caminho mais curto para trabalhar doze horas por dia e sobrar pouco no fim do mês. Cobrar certo não é dom — é conta, e conta simples.

Este guia mostra o cálculo completo da hora técnica: como levantar seus custos, transformar em valor de hora, montar o preço por serviço com peças e deslocamento, e os erros de precificação que prendem o faturamento de quem é ótimo de bancada.

Por que a maioria dos técnicos precifica errado#

O padrão se repete: o técnico olha o preço do concorrente, tira um pouco 'para entrar no mercado' e pronto — está formado o preço. O problema é que o concorrente calculou do mesmo jeito, olhando para um terceiro. É uma cadeia de preços inventados, e no fim dela todo mundo trabalha muito e ganha pouco.

O terceiro erro é o desconto por pressão: cliente pechincha, técnico cede, e o desconto sai inteiro do lucro — porque o custo não diminuiu um real. Preço calculado tem folga de negociação pensada; preço inventado não tem onde cortar.

A saída é inverter a lógica: em vez de 'quanto os outros cobram', a pergunta certa é 'quanto eu preciso cobrar' — e essa resposta está nos seus números, não nos do vizinho.

Passo 1: levantar todos os custos do mês#

Calculadora, caderno, dinheiro e maleta de ferramentas sobre a mesa vistos de cima
Todos os custos do mês na mesa: sem essa lista, qualquer preço é chute.

Some primeiro os custos fixos — os que existam você trabalhando ou não: combustível médio mensal, telefone e internet, MEI/DAS, conta PJ, seguro ou manutenção do veículo rateada, depreciação das ferramentas (um kit de refrigeração dividido pelos meses de vida útil), cursos de atualização e uma reserva para dias sem serviço.

E o item que todo mundo esquece: o seu salário. O negócio precisa pagar um pró-labore definido — o valor que você precisa retirar por mês para viver. Negócio que não paga o dono não é negócio: é autossuficiência disfarçada.

Some fixos + pró-labore: esse é o número que o mês precisa cobrir. Exemplo ilustrativo: R$ 1.500 de custos fixos + R$ 4.000 de pró-labore = R$ 5.500 a gerar por mês, antes de qualquer lucro de crescimento.

Passo 2: o cálculo da hora técnica#

Técnico conferindo o relógio durante o conserto de uma máquina de lavar
Hora técnica é custo mensal dividido por horas realmente faturáveis.

Com o custo mensal na mão, divida pelas horas produtivas — as efetivamente faturáveis. A conta realista: 22 dias úteis × 4 a 5 horas faturáveis por dia (o resto é deslocamento, orçamento e administração) = 88 a 110 horas produtivas por mês.

Da hora nasce o preço por serviço: horas estimadas × preço da hora + deslocamento + peças com margem. A higienização de split de uma hora, a instalação de três horas, o reparo de vazamento de meio período — todos viram conta objetiva, não chute.

E o número ganha utilidade dupla: ele também revela quanto custa ficar parado. Quando o técnico sabe que a hora vale R$ 80, as duas horas perdidas num orçamento mal qualificado por telefone deixam de ser 'faz parte' e viram processo a melhorar.

Passo 3: peças, deslocamento e margem#

Caixas de peças de reposição ao lado da moto de serviço em frente à oficina
Peça, deslocamento e margem entram separados no orçamento — nunca embutidos no chute.

Peças entram no orçamento com margem própria — usualmente 30% a 100% sobre o custo, conforme valor e disponibilidade. A margem não é ganância: é você quem pesquisa, compra, transporta, adianta o dinheiro e responde pela garantia da peça instalada. Peça repassada a preço de custo é serviço de graça disfarçado.

Garantia também tem preço: uma pequena margem de segurança no orçamento cobre o retorno estatístico que todo serviço tem. Quem não precifica a garantia a paga do lucro quando ela aciona.

E a apresentação importa: orçamento discriminado (mão de obra, peças, deslocamento, garantia, prazo) fecha mais e briga menos por preço — o cliente vê o que está comprando. O modelo está em modelo de orçamento de serviço e a sistemática em como fazer um orçamento profissional.

Os erros que prendem o faturamento#

O primeiro já vimos: copiar preço de concorrente sem conhecer o próprio custo. O segundo: não reajustar — peças sobem, combustível sobe, e o preço congelado de 2023 paga 2026 com dinheiro de dois anos atrás. Reajuste anual comunicado com antecedência é profissionalismo, não abuso.

Quarto: vender barato onde deveria vender valor. Emergência de câmara fria em véspera de feriado não é 'serviço comum mais rápido': é resgate de estoque, e precifica como tal. Da mesma forma, serviço especializado (inverter, comercial, selado) não pode custar o mesmo da troca de correia.

E quinto, o silencioso: não medir. Quem não sabe quanto faturou, gastou e sobrou por mês está dirigindo sem painel. Uma planilha simples — ou um sistema de gestão com ordens de serviço e financeiro no celular — transforma a percepção de preço de achismo em dado.

Para quem contrata: entenda o que compõe o preço#

Se você achou o orçamento de um técnico 'caro', entenda o que está dentro dele: deslocamento, conhecimento de diagnóstico, ferramentas que custam milhares, peças com garantia e a responsabilidade pelo serviço depois que ele vai embora. O barato que economiza nesses itens costuma voltar como defeito repetido.

Compare orçamentos pelo conteúdo, não só pelo total: diagnóstico claro, peças identificadas, garantia formal e prazo. O orçamento detalhado é sinal de quem calculou o serviço — o valor redondo demais, de quem chutou.

E valorize quem cobra a taxa de diagnóstico: é o profissional que precifica o próprio conhecimento — exatamente o tipo de pessoa que resolve o defeito de primeira.

Perguntas frequentes

›Como calcular o valor da minha hora técnica?
Some os custos fixos mensais mais o seu pró-labore e divida pelas horas produtivas (faturáveis) do mês — tipicamente 88 a 110. Sobre esse custo, aplique a margem de 30% a 60% para chegar ao preço da hora.
›Devo cobrar taxa de visita?
Sim — o deslocamento e o diagnóstico têm custo real. O modelo mais aceito: taxa de visita/diagnóstico cobrada e abatida do total quando o serviço é aprovado.
›Qual margem colocar nas peças?
De 30% a 100% sobre o custo, conforme valor e dificuldade de obtenção. A margem cobre pesquisa, compra, transporte, capital adiantado e a garantia da peça instalada.
›Como dar desconto sem perder o lucro?
Com preço calculado: embuta no preço final uma folga de negociação pensada, e nunca corte abaixo do custo da hora. Desconto por pagamento à vista é mais seguro que desconto por pechincha.
›Quando reajustar os preços?
No mínimo anualmente, acompanhando custos (peças, combustível) e inflação. Comunique com antecedência e profissionalismo — cliente fiel entende; quem só compra preço, não.
›Precificar errado pode quebrar o negócio?
É a causa mais comum: o técnico trabalha muito, fatura e não sobra nada — porque o preço não cobre custo fixo, deslocamento e garantia. Agenda cheia com preço errado é prejuízo acelerado.

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Sobre o autor

Anderson Rey

Empreendedor e técnico profissional há mais de 17 anos, Anderson Rey é criador do canal Refrimaq no YouTube (598 mil inscritos), fundador da Refrimaq Assistência Técnica, ex-professor do Senac e autor de cursos técnicos com mais de 20 mil alunos no Brasil e no mundo.

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